quarta-feira, 2 de abril de 2008

O Assalto da Alta Crítica Contra as Escrituras...

por Allan A. Mac Rae

Há poucos anos, numa grande universidade, compareci a uma reunião em que um teólogo mundialmente famoso proferiu um discurso. O eminente orador apresentou uma filosofia de vida inteiramente diferente daquela sustentada pelos cristãos conservadores. Sua personalidade brilhante, sua mente cintilante e suas frases bem imaginadas produziram um impacto tremendo em sua grande audiência de estudantes universitários. Naquela noite ele se dirigiu a um pequeno grupo composto, na sua maioria, de professores de teologia e mestres bíblicos, de uma grande área, muitos dos quais tinham vindo de uma distância considerável para ouvi-lo descrever o que ele chamou de “o renascimento do liberalismo na Alemanha”. Depois da conferência da noite, gastou ele aproximadamente uma hora respondendo a perguntas a respeito dos movimentos atuais, e expressou-se livremente sobre vários assuntos. Nunca me esquecerei de sua resposta a uma das perguntas. Ele disse: “Os senhores nunca podem imaginar a terrível angústia e miséria que sofri, tendo vindo do lar de um pastor alemão muito ortodoxo, quando aprendi, como um estudante na universidade, que eu não podia aceitar, por muito tempo, a Bíblia como digna de confiança e livre de erro".

Compreendendo a influência mundial, exercida por este proeminente teólogo, e observando a angústia real que ele expressou, como relembrou os seus dias de estudante, pensei em muitos outros indivíduos que tiveram a mesma experiência. A Alta Crítica convenceu-os de que a Bíblia não é verdadeira. Homens que podiam ter sido grandes evangelistas, grandes líderes no trabalho cristão, grandes poderes para Deus, saíram a desperdiçar a vida, demolindo a verdade cristã e desviando outros do ensino da Palavra de Deus, porque eles mesmos foram convencidos pelo assalto da Alta Crítica sobre as Escrituras.

Não faz muito tempo que quase cada uma de nossas grandes denominações norte-americanas requeria que seus ministros declarassem a fé na integridade absoluta da Palavra de Deus. Não faz muito tempo que o Evangelho, conforme as Escrituras, era pregado em quase cada canto da América do Norte. Não faz muito tempo que a grande maioria dos púlpitos, nos países protestantes da Europa, eram ocupados por homens crentes na Bíblia. Não faz muito tempo que as atividades missionárias, em todas as partes do mundo, eram manejadas quase que inteiramente por aqueles que aceitavam a Bíblia como a divina e infalível regra de fé e prática, os quais não tinham outra ambição, senão a de trazer indivíduos ao conhecimento pessoal do Cristo que é descrito na Palavra de Deus.

A Grande Mudança no Ensino Teológico

Hoje em dia a situação está muito mudada. Ainda que antes se contasse com a grande maioria do clero, no momento é apenas uma minoria, comparativamente pequena, os que demonstram uma plena confiança na Bíblia inspirada. Eles ainda podem ser encontrados em cada nação, mas a liderança e controle das velhas denominações, dos movimentos missionários estabelecidos há muito tempo, e das famosas instituições de ensino teológico têm passado, em grande proporção, às mãos daqueles que atentam para o pensamento e imaginação humanos, no sentido de conseguirem levar indivíduos ao conhecimento de Cristo.

O que tem produzido esta grande mudança? Naturalmente há muitos fatores envolvidos. Desde que o homem foi criado, Satanás tem estado sempre se esforçando ativamente para desencaminhar os homens. Desde que o homem caiu, a luxúria da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida o têm incitado a desviar-se das veredas dos desígnios de Deus. Estes fatores sempre têm estado conosco: Todos eles fazem parte da tremenda mudança que o século passado viu, mas o novo e maior fator tem sido o assalto da Alta Crítica contra as Escrituras.

Até 1878, esse assalto restringiu-se quase que exclusivamente às salas de aula e aos livros acadêmicos. Então Julius Wellhausen escreveu seu “Prolegômena à História de Israel”, em que habilmente apresentou um ponto de vista particular entre os muitos que haviam sido avançados pelos eruditos da Alta Crítica, durante o século anterior. O livro teve um enorme impacto e as idéias que haviam sido anteriormente ensinadas por uns poucos eruditos, foram amplamente disseminadas através do mundo protestante. Nos anos mais recentes, elas se têm propagado no mundo dos eruditos judeus e católicos romanos e parece que agora estão firmemente estabelecidas nesses centros.

A característica essencial da teoria de Wellhausen é a pretensão de que os cinco primeiros livros da Bíblia, em vez de serem originalmente escritos como unidades, substancialmente, na forma como os temos hoje, vieram à existência através de um processo de entrelaçamento e de fontes combinadas, que antecipadamente haviam circulado separadamente.

Muitos Documentos - Um Livro

Segundo essa teoria, o documento chamado “J” (Jeovista) foi escrito muitos séculos depois dos eventos que descreve. Um século ou dois mais tarde, outro documento, mais ou menos paralelo ao documento “J”, foi escrito. Depois de circular separadamente por algum tempo, alguém os reuniu, inserindo várias porções do documento mais novo “Ë” (Eloista) no documento “J”, em lugares apropriados. Muitos séculos passaram e então o documento “D” (Deuteronômico) foi composto, pretendendo conter o discurso da despedida de Moisés. Eventualmente este último foi inserido na parte final do documento combinado “JE”. Aproximadamente no tempo do exílio, um grupo de sacerdotes compôs ainda outro documento, o chamado documento “P” (“Priestly”- Sacerdotal), muito paralelo à matéria já coberta pelos documentos “J” e Ë”. Eventualmente esse foi cortado em grandes e pequenas seções, entre as quais seções similares de outros documentos foram introduzidas. Como resultado, diz-se que o Pentateuco, como conhecemos atualmente, está composto de partes entrelaçadas desses documentos, de modo que lemos freqüentemente uma seção de cada documento, seguida por uma seção de outro; depois talvez um versículo ou dois do primeiro; então dois ou três versículos do segundo; em seguida, talvez, a metade de um versículo do primeiro novamente; logo uma porção do terceiro; depois mais do segundo, e assim por diante, num arranjo complicado de uma obra de retalhos. De acordo com muitos críticos, o mosaico literário assim produzido inclui não somente os livros que conhecemos hoje, como Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, mas também o livro de Josué.

Tal é a teoria que é sustentada e propagada hoje em dia, praticamente da mesma forma como quando foi apresentada, aproximadamente uns cem anos atrás. No tempo que se interpõe, não se descobriram novos fatos em seu favor e muitas das bases teóricas sobre as quais originalmente se promoveu, na atualidade têm elas sido quase que completamente abandonadas. A teoria, entretanto, continua sendo apresentada como uma história de fato e está sendo até ensinada nas escolas secundárias de alguns estados americanos.

Visto que este é o caso, é importante que cada assistente na igreja e cada estudante da Bíblia conheça exatamente quais os fatos a respeito desta teoria, que tem sido diferentemente chamada de “A Teoria da Fonte”, “A Teoria Multidocumentária” ou “A Teoria de Graf-Wellhausen”.

Wellhausen declarou que os documentos “J”, “E”, “D” e “P” não nos dão nenhum conhecimento verdadeiro do pretendido tempo dos eventos descritos, mas apresentam meramente as crenças dos tempos, quando os documentos particulares foram escritos. Na página 320 do seu livro, ele disse: “Abraão... é algo dificultoso par interpretar. Isto não significa que, em tal conexão como esta, podemos considerá-lo como um personagem histórico; podia, com mais probabilidade, ser considerado como uma criação livre de arte inconsciente. Talvez seja ele a figura mais jovem no grupo e provavelmente foi num período comparativamente posterior, que ele tenha sido colocado antes de seu filho Isaque”.

Quatro anos depois de haver aparecido o livro de Wellhausen, este pediu para ser exonerado de seu cargo de professor do Departamento Teológico da Universidade de Greifswald e transferido para um outro posto no departamento de línguas antigas em outra universidade. Como razão para este pedido, apontou o fato de que de um professor de teologia se esperava preparar homens para os púlpitos da Igreja Evangélica, e declarou que, não importava com quantas forças ele procurava conter-se, achou que seu ensino resultava, não em preparar homens para ocupar esses púlpitos, mas antes em incapacitá-los para fazê-lo. Os seguidores de Wellhausen têm, por quase um século, treinado ministros em seminários teológicos em todo o mundo. Quão diferente seria a condição religiosa do mundo, se os sucessores de Wellhausen tivessem mostrado a mesma honestidade e franqueza de seu grande líder.

A ascensão da Alta Crítica foi parte de um movimento divulgado que começou, não pelo estudo da Bíblia, mas pelo estudo das grandes obras da antigüidade clássica. O seu primeiro protagonista proeminente foi Friedrich August Wolf, que, na sua “Prolegômena a Homero” (1795), apresentou a idéia de que a Ilíada e a Odisséia tinham sido formadas por uma combinação de várias fontes diferentes. O famoso poeta alemão, Goethe, foi, a princípio, grandemente atraído pela idéias de Wolf.

Entretanto, conforme Goethe relia a Ilíada e a Odisséia, cada vez mais se convencia de que a sua grandeza não podia ser explicada como o resultado de uma mera colcha de retalhos, e eventualmente publicou uma retratação do apoio que havia antecipadamente dado às teorias de Wolf. As idéias de Wolf foram elaboradas mais pormenorizadamente por Lachmann, que as estendeu à famosa Épica Alemã, a Nibelungenlied. Mullenhoff, um aluno de Lachmann, aplicou o mesmo método ao anglo-saxão Beowulf. Durante o século dezenove, tais métodos foram comumente aplicados aos escritos mais antigos ou medievais. Não era senão natural estendê-los à Bíblia.

Livros que apresentam as teorias documentárias de várias porções do Velho Testamento, freqüentemente contem afirmações como esta: “Devemos aplicar à Bíblia os mesmos princípios de estudo literário, que aplicamos a outros livros”.

O em que os autores desses livros falharam foi em perceber que, no estudo literário não bíblico, esses métodos da Alta Crítica estão sendo atualmente abandonados, quase que por completo. Assim, na introdução à sua tradução da Odisséia, que foi publicada primeiramente em 1946 e foi reimpressa muitas vezes, desde aquela data, E.V. Rieu diz: “A Ilíada e a Odisséia de Homero tem proporcionado, de vez em quanto, um campo de batalha de primeira classe para os eruditos. No século dezenove especialmente, críticos alemães chegaram ao extremo de demonstrar não somente que as duas obras não são só o produto de uma inteligência única, senão que cada uma é uma peça de remendo intrincado e muito mal costurada. Nesse processo, Homero desapareceu.

“Ele já foi firmemente restabelecido sobre o seu trono e seus leitores podem sentir-se seguros de que estão nas mãos de um só homem, como o fazem quando se voltam para o livro ‘As You Like It’, depois de ler, por exemplo, um King John”.

Como estas observações indicam, há atualmente muitos eruditos que sustentam firmemente a unidade integral da Ilíada e da Odisséia. Outros negam esta posição, mas estão eles mesmos muito mais próximos dela do que das opiniões de Lachmann, as quais tendem a repelir com desprezo. O professor Albert Guerard, da Universidade de Stanford, disse: “Para reduzir-se Homero a um mito ou a um simples comitê seria necessário um ácido muito mais forte do que o que a escola Wolfiana tem sido capaz de fornecer”. Continua ele: “Um livro é uma obra mestra, não um acidente”. E adverte mais adiante: “Nenhum processo de acréscimo poderia explicar a grande unidade do tema, desenvolvimento, caráter, espírito e estilo que achamos em Homero. Podíamos igualmente imaginar que o Panteão resulta do acaso de conglomeração de cabanas rústicas no curso dos séculos”. E’ difícil ver, diante de tais fatos, como alguém poderia sentir-se, de modo muito diferente, a respeito do livro de Gênesis.

No começo do século presente, um grupo de eruditos da Universidade de Londres atacou vigorosamente as teorias divisíveis. O professor R.W. Chambers, por exemplo, indicou a improbabilidade inerente das teorias divisionistas do épico Beowulf, e disse: “Não se deve presumir, sem evidência, que essas canções perdidas dos tempos pagãos fossem de tal caráter, que um épico pudesse ser produzido por ajustá-las apenas umas às outras. Meia dúzia de motocicletas não podem ser combinadas para fabricar um Rolls-Royce”.

A Alta Crítica se torna Anticientífica

Mesmo uma rápida comparação de discussão de Shakespeare, escrita há quarenta anos atrás, com as da atualidade, é suficiente para indicar a grande diferença de atitude nos círculos literários. Um dos dois críticos sempre se apegam aos métodos antigos, todavia a maior parte dos escritores atuais reconhece que mesmo Shakespeare podia escrever linhas pobres, e que é bastante anticientífico selecionar umas poucas coisas boas e então atribuir o restante a vários escritores imaginários. A Alta Crítica está completamente morta, exceto quando ela considera a Bíblia. Aqui é mantida tenazmente.

A aplicação contínua desses métodos à Bíblia, não obstante o seu quase completo abandono em outros campos de estudo literário, é ainda mais estranho, visto que o material comprobatório encontra-se mais à mão do que nunca. Este é o resultado das investigações da arqueologia. Durante os cem anos passados, um novo mundo completo se levantou do pó, através da obra de escavadores no Egito, Mesopotâmia, Palestina e em outras partes do Oriente Próximo. Ponto após ponto, onde afirmações bíblicas têm sido consideradas pelos críticos como sendo puramente imaginários objetos materiais ou escritos enterrados por muito tempo têm vindo à luz, os quais concordam exatamente com as declarações bíblicas, como são estabelecidas, e não concordam com a história reconstruída pela Alta Crítica. Alguns defensores do método de Wellhausen fecham os olhos resolutamente a estes assuntos e sustentam que muito do conteúdo bíblico representa acontecimentos míticos ou produtos da imaginação humana. Muitos, entretanto, procuram ajustar-se às descobertas arqueológicas. Entre aqueles teóricos das fontes documentárias que aceitam a evidência arqueológica nos pontos particulares, onde claramente ela se aplica, e aqueles que procuram eliminá-las, desenvolvem-se graves tensões. Observem-se, por exemplo, argumentos fortes que se tem desenvolvido entre as escolas de Albright, Bright e Wright, e a de Alt. North e Von Rad. A arqueologia tem apresentado a evidência que pode exterminar as teorias documentárias, se aplicada apropriadamente; porém muitos recusam aplicá-la.

Em anos recentes, tem existido uma reação muito considerável entre eruditos liberais contra alguns dos extremos da escola de Wellhausen, maiormente da parte de homens que tem trabalhado na arqueologia do Velho Testamento. Como eles tem descoberto ponto após ponto, nos quais a evidência da arqueologia na Palestina, ou em qualquer outra parte, se conforma com as declarações da Bíblia e não se ajusta com a Bíblia como construída pela Alta Crítica, esses homens têm propendido a considerar, mais e mais, seções do Velho Testamento como representando fatos históricos. Todavia, a maior parte deles ainda mantém os pontos essenciais do sistema de Wellhausen. Podem eles afirmar que as idéias de Wellhausen, de história e religião, foram incorretas, embora declarem ainda que os livros do Pentateuco não foram escritos por Moisés ou por qualquer autor individual, porém representam uma produção mista, formada pelo entrelaçamento de documentos contraditórios, que vieram à existência através de um longo período de tempo.

Na Escandinávia, há um grupo de eruditos, conhecido como a Escola de Uppsala, que ataca a total teoria de Wellhausen, mas por si mesmo apresenta uma opinião que é, talvez, até mais contrária para a verdade cristã. De acordo com as opiniões de Engnell e da Escola de Uppsala, muito pouco, talvez quase nada do Pentateuco foi escrito antes do tempo do exílio, e tudo veio à existência por meio de seções que se desenvolveram gradualmente, procedentes de idéias puramente humanas, através de transmissão oral.

Expoentes da Alta Crítica sabem pouco a respeito dela

Uma propaganda astuta tem convencido grande número de nossas classes educadas, que a Alta Crítica é verdadeira, porém muitas dessas pessoas atualmente conhecem pouco a respeito dela.

Um graduado do Seminário Teológico da Fé recebeu recentemente o pastorado de uma grande igreja independente em uma pequena cidade. Logo ele soube que o pastor de uma igreja vizinha, pertencente a uma de nossas grandes denominações, estava insistindo que a Alta Crítica é verdadeira, e que a nossa crença na inspiração plenária da Palavra de Deus é, portanto, absurda. Desafiou ele o homem para um debate e o homem o aceitou. O debate realizou-se em uma escola secundária. Apenas tinham eles começado, quando se tornou evidente que o ministro que estava defendendo a Alta Crítica não conhecia praticamente nada a respeito das opiniões reais de Wellhausen. Foi necessário que o debatente contra as opiniões de Wellhausen explicasse claramente de que assunto se tratava, a fim de mostrar os seus erros.

Não nos é suficiente dizer hoje que a Alta Crítica está errada. Devemos conhecer as evidências. Devemos conhecer a situação. Com o progresso da arqueologia e com a atitude mudada em relação ao estudo literário, é mais fácil do que nunca, sobre uma base científica objetiva mostrarmos que a Alta Crítica está errada. Mas a Alta Crítica está sendo amplamente ensinada, mais do que nunca, e encontrando expressão nos novos credos que estão sendo adotados por grandes denominações e destruindo a fé em estudantes para o ministério em todo o mundo. Em minha opinião, não há uma necessidade maior para o mundo cristão atualmente, do que a de que os crentes em Cristo devem conhecer os fatos acerca da Alta Crítica e estar preparados para trazer estes fatos à atenção daqueles que estão sendo desencaminhados em nossas escolas, nas escolas dominicais da maioria de nossas denominações e até em nossas escolas secundárias, onde o ensino da Alta Crítica, como um suposto fato estabelecido, está sendo mais e mais introduzido.

Por mais de quarenta anos, tenho estado examinando vários aspectos das teorias documentárias. Durante os dois anos passados, eu me dediquei intensivamente ao estudo do assunto. Num trabalho de vinte e sete minutos, sobretudo o que se pode fazer é acentuar a sua importância. Desejo, contudo, sumarizar alguns dos resultados de minha investigação. Ordenei-os sob títulos específicos e gostaria de os ler para vós, como seguem:

1. Temos centenas de cópias manuscritas dos primeiros cinco livros da Bíblia, e todas elas os apresentam na forma em que os temos hoje. Nem mesmo uma cópia antiga de “J”, “E”, “D” ou “P , como uma unidade separada e contínua, jamais foi achada.

2. Nenhum documento que nos veio dos tempos antigos contém qualquer menção desses documentos como tendo jamais existido. Não existe referência antiga a registro de qualquer documento semelhante ou a tal processo de combiná-los como a teoria o pretende. Não há evidência de que qualquer processo semelhante realmente tenha ocorrido.

3. A teoria é talvez a única sobrevivente de um método de estudo literário do século dezenove, que, aliás, tem sido quase que completamente rejeitada, exceto no campo da crítica bíblica. Há um século atrás era uma prática comum desenvolverem-se teorias desse tipo, com respeito à quase todo documento antigo ou medieval. A maior parte de tais teorias tem sido atualmente abandonadas e são consideradas como meras curiosidades literárias. E’ somente no campo do estudo bíblico, que esta atitude do século dezenove tem sido conservada.

4. Durante o século dezenove, vários eruditos alemães apresentaram teorias muito diferentes a respeito da origem dos cinco primeiros livros da Bíblia. Nenhuma dessas teorias conseguiu ascendência completa antes de 1878, quando uma teoria particular, surpreendentemente diversa da maioria das opiniões sustentadas, foi promovida por Julius Wellhausen. Essa nova teoria foi publicada em todo o mundo de língua inglesa por S.R. Driver e outros seguidores de Wellhausen. Embora tenha passado aproximadamente um século, no curso do qual nenhuma nova evidência em favor da teoria tenha sido descoberta, ela está sendo hoje amplamente ensinada, quase da mesma forma em que foi então apresentada.

5. Uma grande parte do motivo para a aceitação da teoria multidocumentária, promovida pelo professor Wellhausen, em 1878, foi o fato de que ele a baseou sobre sua hábil apresentação de uma idéia particular do desenvolvimento da religião israelita. Essa idéia, entretanto, atualmente tem sido quase que universalmente rejeitada. Poucos eruditos sustentam hoje a teoria do desenvolvimento religioso hebreu, que seja mesmo aproximadamente similar àquele sobre o qual Wellhausen baseou a sua idéia das fontes do Pentateuco e ainda o método de Wellhausen de dividir essas pretensas fontes e sua opinião a respeito da ordem da composição delas (embora baseadas sobre uma teoria de desenvolvimento não mais sustentada), estão ainda sendo apresentados como fato estabelecido.

6. Uma característica essencial da teoria, como foi ensinada pelo professor Wellhausen, era a sua pretensão de que os vários documentos, - todos escritos de acordo com a teoria, muito depois do tempo dos patriarcas - apresentam somente os padrões e idéias de vários períodos, em que se pretende que foram escritos e não nos dizem nada a respeito do tempo dos patriarcas. À luz das descobertas arqueológicas, reconhece-se atualmente que esta atitude já não é mais sustentável. Portanto, a maioria das recentes apresentações da teoria afirma que uma grande parte do material, em cada um dos documentos, foi transmitida oralmente, durante muitos séculos, antes de ser incorporada em forma escrita, e que mesmo o mais recente dos documentos contém muito material que é realmente primitivo. Assim uma base importante da idéia de Wellhausen foi realmente abandonada pelos seus atuais promotores.

7. Seus protagonistas afirmam que a teoria pode ser demonstrada pela indicação de diferença de estilo entre os documentos. Entretanto, essas alegadas diferenças no estilo se estabelecem, principalmente, pelo fato de que certas partes do Pentateuco são estatísticas ou enumerativas, enquanto outras partes têm mais de um estilo narrativo corrente, e a maior parte do Livro de Deuteronômio consiste de exortação. Não há razão por que o mesmo escritor não pudesse usar nenhum desses três estilos, dependendo da natureza do assunto em particular. Desse modo, temos um estilo enumerativo em Gênesis um, onde a formação do universo material é apresentada em estágios definidos. Para o assunto de Gênesis dois, que descreve mais minuciosamente a criação do homem e a formação de um ambiente próprio para a sua vida, o estilo narrativo é mais apropriado. Em mensagem de advertência e admoestação, o estilo de exortação é natural. Exemplos similares do uso de estilos, pelo menos tão diferentes como esses, podem ser encontrados em quase todas as obras de qualquer grande escritor prolífico da atualidade.

8. Diz-se freqüentemente que os nomes dados a dois desses documentos são baseados sobre a alegação de que o chamado documento “J” usa o nome “JHWH” (SENHOR na versão King James), para a Deidade, enquanto que o chamado documento “E” se diz que emprega o nome Elohim (Deus na RJV). Todavia cada uma dessas pretensas fontes realmente usa ambos os nomes divinos no Pentateuco e em todas as fontes alegadas o nome JHWH é em grande parte mais comum do que o nome Elohim. Em explicações os defensores da teoria afirmam que, segundo os documentos E e P, o nome JHWH não foi revelado antes dos primeiros capítulos do Êxodo. A teoria é, desse modo, não que cada documento preferisse um certo nome, mas que cada documento tinha uma teoria diferente, quanto ao tempo, quando o nome foi introduzido primeiramente, e evitou-o deliberadamente antes daquele ponto da narração. Visto que se pretende que todos os documentos foram escritos muitos séculos depois do tempo do Êxodo, um procedimento tal como a teoria assume seria artificial e um tanto improvável que tenha ocorrido assim. Ademais, a sua base em declarações bíblicas é extremamente fraca. Além disso, o uso de nome diversos, em diferentes conexões, não é de todo inusitado e pode ser facilmente explicado sobre outras bases que não a da origem de uma colcha de retalhos.

9. A declaração de que há duplicação constante de material nas várias fontes pretendidas é grosseiramente exagerada. Algumas dessas chamadas duplicatas são realmente eventos diferentes um tanto similares, porém, na realidade, nada mais são do que aquilo que freqüentemente ocorre na vida ordinária, como se pode demonstrar muito facilmente. Em outros casos, uma alegada repetição é meramente um sumário dado no princípio ou no fim de um relato, uma recapitulação proveitosa, ou expediente literário para fazer uma narração mais vívida. Muitas das alegadas repetições ou duplicações, se examinadas sem preconceito, podem mostrar-se como tendo um propósito natural no relato.

10. Muitas das contradições pretendidas, entre as chamadas fontes, desaparecem por meio de um exame cuidadoso. Assim é alegado que os documentos J e P mostram Rebeca influenciada por diferentes motivos ao sugerir a partida de Jacó, de Canaã, sendo o motivo, num caso, permiti-lo escapar da ira de seu irmão e, em outro, induzi-lo a procurar uma esposa conforme os desejos de seus pais. Realmente não há qualquer contradição em supor-se que Rebeca foi influenciada por ambos os motivos e que, em proceder com os dois homens a quem ela desejava influenciar, usasse, em cada caso, o argumento que ela sabia fosse para cada um deles um apelo, mais do que um outro que fosse capaz de contrariá-los.

11. Estes fatos indicam a existência de razões lógicas para o fenômeno no Pentateuco, todos eles consistentes com a idéia de uma autoria unificada, e não requerendo a adoção de uma teoria sem base, que é uma sobrevivência do século dezenove e que é totalmente incompatível com os métodos atuais de estudos literários.

12. A maioria dominante de pessoas que aceitam a Teoria Multidocumentária, incluindo-se muitos daqueles que a ensinam, procedem assim, devido à confiança nos homens pelos quais ela é promovida, mais do que sobre a base de uma investigação completa. Os interesses da verdade exigem que os fatos sejam examinados objetivamente e sem preconceito. Quando isto é feito, torna-se claro que a teoria necessita de evidência real e base lógica e sólida.

Nestas declarações, sumarizei brevemente uma parte dos resultados de muitos anos de estudo das teorias documentárias. O assunto completo pode impressionar a muitos de vocês como sendo seco e desinteressante. Todavia, não hesito em predizer que os filhos de muitos de vocês perderão a fé cristã, por causa da apresentação insidiosa dessas teorias. Alguns deles perderão todo o interesse em assuntos cristãos sob uma orientação liberal. Estes são os mais ditosos. Outros, totalmente incapazes de escapar de uma educação cristã sob tal orientação, gastarão o restante de suas vidas promovendo a infidelidade doutrinária e desviando a muitos da Palavra de Deus.

É muito difícil resistir à propaganda constante, que pretende mostrar como a Bíblia veio à existência como um resultado do entrelaçamento de vários escritos humanos, por um processo puramente humano. Muitos que hoje estejam demolindo a fé cristã e insistindo em revolução, em vez de regeneração, estariam apresentando a Palavra de Deus, se não tivessem sido influenciados pelos ensinos da Alta Crítica.

Pode ser que você não esteja interessado neste assunto hoje, mas tempo virá, quando você me dará a destra para podermos ajudar a alguns, talvez o seu próprio filho, que esteja em perigo de perder a fé, devido à incapacidade dele de responder, agora, aos argumentos propostos pela Alta Crítica.

Eu espero que cada um de vocês obtenha pelo menos duas cópias de meu pequeno trabalho escrito, que contém estes doze pontos, e o guarde, onde possa achá-lo facilmente. As declarações mostram a linha de resposta à teoria de Wellhausen. E’ impossível, num trabalho desta extensão, apresentar evidência suficiente. Quando você encontrar um ponto particular sendo discutido, faça o favor de me informar. Tenho evidência abundante para todos esses pontos e ficarei contente em fazê-la útil para você. Não sei de maior necessidade no serviço cristão hoje do que ajudar aqueles cuja fé está sendo arruinada pelo ensino divulgado das teorias da Alta Crítica.

2 comentários:

samuel.cunha disse...

Olá.

Só para dizer que achei o artigo tremendo. De facto, a ciência literária parece ter dois pesos e duas medidas quando se refere às Escrituras Sagradas - Bíblia.

Obrigado pelo contributo.

Samuel

Anônimo disse...

oi.
Não vejo porque tanto alarde sobre tal assunto. Falar apenas da teoria documentaria não pode tirar a grande contibuição q a alta critica proporciona ao estudo bíblico. Vemos constantemente alunos das escolas bíblicas colocando questões que deixam muita gente sem respostas. Devemos parar de fingir e reavaliarmos aquilo que realmente temos ouvido pregar por décadas. Devemos nos voltar realmente para o estudo bíblico e não ficarmos acomodados com apenas o q temos aprendido por osmose em muitas igrejas.

grato pela oportunidade de comentar.

Ivo